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Revista nº 1

outubro 2001

NOVOS
AUTORES

Brites dos Santos tem 50 anos. No ano de 1999, publicou 2 poemas numa antologia de novos autores. Nos últimos meses tem animado um fórum de poesia na Internet a que chamou Laboratório de Poesia e que tem tido uma “adesão notável”. Desde muito cedo, por influência do pai que escrevia umas quadras soltas, começou a interessar-se por poesia. Os seus primeiros poemas datam de 1962. Defende que a poesia é uma escrita natural e não forçada, fácil e nunca difícil, porque é a transposição dos sentimentos para o papel! Não é nem poderá ser uma escrita “de encomenda”.

BRITES DOS SANTOS

EU QUERIA SER POETA

Eu queria ser poeta…
Ah! Como eu queria ser poeta…

Viveria com as palavras,
Seria alquimista das palavras,
Misturá-las-ia com sabedoria,
Criaria novas palavras
Mais fáceis de entender,
De perceber,
Melhoraria as relações,
Acabaria com as desilusões!

Seria profeta…
Ah! Se eu fosse poeta…

Eu queria ser poeta…
Ah! Como eu queria ser poeta…

Seria amado
Como só um poeta pode ser amado,
Amaria
Como só um poeta sabe amar,
Criaria uma nova forma de amar
De gostar,
Melhoraria o pensamento,
Acabaria com o sofrimento!

Seria profeta…
Ah! Se eu fosse poeta…


NÃO ME PEÇAS PARA TE ESQUECER

Não me peças para te esquecer
meu amor!

faço tudo menos esquecer.
não posso esquecer
meu amor!

não me peças para fingir que não aconteceu
meu amor!

faço tudo menos fingir que não aconteceu.
não posso fingir
meu amor!

não me peças para ignorar os sentimentos
meu amor!

faço tudo menos ignorar os sentimentos.
não posso ignorar
meu amor!

não me peças para te perder
meu amor!

faço tudo menos perder-te.
não posso perder-te
meu amor!

não me peças para pensar que foi um equívoco
meu amor!

faço tudo menos pensar que foi um equívoco.
não posso pensar
meu amor!

pede-me antes para te lembrar,
para te abraçar,
para te beijar,
para te acariciar,
meu amor!

pede-me antes para te amar
meu amor!


SUA EXCELÊNCIA O SENHOR MINISTRO DA CULTURA

Sua Excelência o senhor ministro da cultura
Comemorou o dia mundial da poesia.
Transformou uma alegre tarde de sol numa tarde triste e escura
Sem poetas na rua, sem poetas convidados, sem poetas
A poesia se poesia existia estava solitária nuns tímidos papeis de cor

Sua Excelência o senhor ministro da cultura
Comemorou o dia mundial da poesia.
Atingiu certamente muitas das suas inconfessáveis metas
Mas não atingiu a poesia, nem o sentimento, nem o amor
Porque não tinha consigo os poetas.

Sua Excelência o senhor ministro da cultura
Comemorou o dia mundial da poesia.
E lamentavelmente esqueceu-se dos poetas

Sua Excelência o senhor ministro da cultura
Comemorou o dia mundial da poesia.
Sem as mulheres e os homens criadores da poesia
E dois dias depois eu estive num encontro de poesia
Onde se pediu “encarecidamente” aos poetas para não dizerem poesia!
Por favor! que mundo é este que fecha as portas à poesia
Mesmo quando se fala e age em nome da poesia?

Sua Excelência o senhor ministro da cultura
Comemorou o dia mundial da poesia.
O que é que eu faço com o dia mundial da poesia?
Todos os dias para mim são o dia mundial da poesia!

A mim não me apetece desatar em histéricos prantos.
Não me apetece citar Cristo, nem Deus, nem Anjos, nem Santos.
Não me apetece desatar alegremente em estúpidas gargalhadas
Apetece-me simplesmente falar de nomes de pessoas
Mesmo que esses nomes não tenham métrica nem rima
E que portanto as palavras não se possam considerar poeticamente boas

Al Berto, Alexandre O’Neil, Almada Negreiros,
Almeida Garrett, Antero de Quental, António Aleixo,
António Botto, António Gedeão, António Nobre,
Aragon, Bertolt Brecht, Castro Alves,
Cesário Verde, Bernardim Ribeiro, Camilo Pessanha,
Carlos Drumond de Andrade, Eugénio de Andrade, David Mourão Ferreira, Federico Garcia Lorca, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Herberto Helder, Joaquim Namorado, Joaquim Pessoa, Jorge de Sena,
Jorge Luís Borges, José Afonso, José Carlos Ary dos Santos,
José Gomes Ferreira, José Régio, Luíz Vaz de Camões,
Machado de Assis, Manuel Alegre, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Mario Cesariny, Mário de Sá Carneiro, Mario Dionísio,
Mário Henrique Leiria, Mia Couto, Miguel Torga, Natália Correia, Norge, Octávio Paz, Pablo Neruda, Paul Éluard, Ruy Belo,
Sérgio Godinho, Sophia de Melo Breyner Vinícios de Moraes,

E tantos, tantos mais meu Deus,
E são todos nossos e são todos meus!

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