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Revista nº 1

outubro 2001

NOVOS
AUTORES

José Carlos, 23 anos de idade física (nascido algures em 1978) e idade mental oscilante entre 2 e 67.
Escreve apenas quando sente verdadeiramente as coisas (sejam elas quais forem) porque, segundo diz, quando não sente “é porque estou a dormir, o que torna árdua a tarefa de manuseamento de caneta ou teclado”.

José CarlosJOSÉ CARLOS

DIS ALITER VISUM

Hoje tirei o dia

Para pensar nas coisas
Para pensar no que tenho
Para pensar no que não tenho
E não foi preciso pensar muito
Para descobrir uma coisa

O que tenho não quero
O que quero não tenho

Pensei logo nos teus olhos
E depois em tudo o resto
Pensei no que poderia ter sido
E depois no que foi
E não foi preciso pensar muito
Para descobrir uma coisa

O que foi não devia ter sido
O que devia ter sido não foi

Depois pensei na tua voz
E percebi como é diferente das outras
Reparei como gosto de te ouvir
E há tanto tempo que só ouço os outros
E não foi preciso pensar muito
Para descobrir uma coisa

O que ouço odeio
O que amo não ouço

No fim pensei outra vez em ti
E apercebi-me que só tinha pensado no que não tenho
Afinal só pensei em ti o dia todo
Afinal foi um dia igual aos outros
E no fim do dia
Descobri o que já sabia

Que tudo o que eu quero és tu
E que tu és a única coisa que eu não tenho


AFOGADO

A tristeza escorre-te líquida pela cara
Faz-me pensar se terei sido eu
Ou talvez as outras nuvens
Passo-te a mão pelos olhos
E sinto que o amor secou nas tuas veias
Aquele vento que mais ninguém sentia
Terei sido eu
Ou apenas a chuva?
Os teus olhos que sempre olharam
E que nunca me viram
Só respondem ao que eu não pergunto
Só me dizem o que já sei
E que tinha tentado esquecer
Continuaste a andar
Mas eu fiquei para trás
Tenho o coração húmido
Das lágrimas que choraste por outros
Tenho uma vida a afogar-se
Nas lágrimas de tanta gente
Que nunca chorou por mim
Mas tu continuaste a andar
E nem tinha sido eu
Nem as nuvens
Nem a chuva
Tu continuaste a andar
Porque a tua tristeza secou
Mas a minha não

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