Margarida Lobato Costa, 28 anos, natural de Braga. A poesia deixa as suas marcas desde muito cedo, por volta dos 9 anos, muitos já a enunciavam como poeta, as palavras era o porto-abrigo mais seguro de todos os tempos mortos. Editou um livro de poesia “Encenar é viver” no ano de 2010, tinha 16 anos. Tem uma dicotomia de personalidades, trabalha com números no seu dia-a-dia e é o que chamamos actualmente como cientista de dados.  A poesia continua a ter um papel importante na sua vida.
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 O TENDÃO DE AQUILES DO HOMEM

Um alcoolismo apático tolda-nos a visão,
Andamos cegos e apáticos de moralidade.
Tolda-nos os sentidos,
Essa insegurança e esse amor à vida.
Entra em nós uma sede tão grande de angústia,
Que não sabemos viver de outra forma.
Agarrados vivemos ao coração,
Aguardamos o seu último suspiro
E mesmo que ele, inquietamente não apareça,
Afoga-nos na angústia.
A incerteza é o tendão de Aquiles do homem.
E a humanidade fica atordoada,
Apática e, ao mesmo tempo ferida,
Porque temos um medo desenfreado pela vida.
E talvez isso nos crie um egoísmo mórbido,
Uma cláusula no contrato humano,
Que nos pede para vivermos sós.
Mas sabem? Enquanto viver só for uma opção,
Viver sozinho será sempre uma impossibilidade.
A humanidade é demasiado humana para estar perdida.

 

SOLIDÃO AUSENTE

Pergunto à vida maldita esta,
Do alto do meu silêncio,
Se a sombra que me esbate no peito,
Abafa a obscuridade da minha alma,
Ou perpetua o seu efeito.

Pergunto à vida, maldita esta,
Se o sôfrego que sinto no peito,
É figuração maldita do esquecimento,
Ou a verdade mais tenra do meu desapego.

Porque já só sinto desapego.
Desapeguei-me das rugas extensas de noite mal dormidas,
Desapeguei-me dos lençóis suados de todas as vidas que fui,
Desapeguei-me das marcas esbatidas daqueles murros desenfreados
      [e mal direcionados no colchão no qual me deito,
Desapeguei-me.

E tão pouco relutante, deitei-me.
Desprendida de tudo o que era meu mas nunca foi,
Arrependida da minha solidão ausente,
Talvez tão presente que nunca deixei que nela tocassem.

 

O QUE OS TEUS OLHOS ME DIZEM EM SEGREDO

Devias saber que não sei,
Devias saber que mesmo que soubesse não sabia,
E mesmo com a certeza toda não saberia.
Devias escrever com toda as letras,
O que a tua boca tem medo de dizer.
Devias usar as rimas de todas as métricas,
As fábulas de todas as histórias,
Os verbos de todas as frases.
Nunca devias ser capaz de conjugar verbos no pretérito imperfeito,
O presente é conjugação perfeita de todos os versos.
Mesmo que contes uma história intemporal ou uma verdade feita,
Vive-a convictamente.
Conta-me convictamente.
Tentar olhar para mim como se fosse a última vez que me visses,
Tenta falar comigo como se fosse a última frase que pronunciasses,
Tenta viver comigo como se fosse o último suspiro da nossa alma moribunda
E tenta, por favor tenta,
Dizer-me ao ouvido,
O que os teus olhos me dizem em segredo.

 

ANDO A APRENDER A VIVER

Tenho uma dor incompreensível,
Um tormento que me aperta a garganta,
Uma saliva seca que me engasga o positivismo.
E não é uma dor que não me deixe viver,
É uma dor que vai vivendo comigo.
Ando a aprender a viver,
Tenho medo de me habituar à dor,
Tenho medo que ela viva camuflada em mim,
Tenho medo.
E eu que sou tão racional,
Ando aqui a viver de sentimentos…
Queria guardá-los num reservatório,
Num poço sem fundo,
Queria simplesmente guardá-los, esquecê-los.
Deixá-los para lá de mim.
Mas viver para lá de sentimentos,
É viver para lá, muito fora de mim.
Por isso, qual seja o meu infortúnio,
Mesmo cansada e triste,
Seja sempre este.

 

DÚVIDAS

Há uma insegurança nítida na tua indecisão,
Há um forte aconchego na tua dúvida,
Há um sentimento que eu vejo,
Há um sentimento que eu sinto,
Mas não há da tua boca palavras,
Não há ações consequências.
Andamos a roubar tempo à vida
E vida ao tempo.
Andamos a esconder o inevitável,
Andamos a fugir entre os pingos da chuva,
Andamos a roubar vida ao tempo
E tempo à vida.
E eu calada estou, calada fico.
Nunca ousarei dizer-te nada,
Nada mais, do que já te disse.
E seria insensato dizer-te de novo,
Apesar da insanidade me ser tão característica.
Não sei dizer-te mais,
Do que nossas mãos interlaçadas já disseram
E não vou mergulhar no abismo,
Apesar de me teres dito,
Como só os teus olhos sabem dizer,
Que estarias à minha espera no fim do precipício.
Andamos a roubar-nos tempo,
Andamos a roubar-nos vida.