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Revista nº 1

outubro 2001

  • Novos autores

    Aqui estão os poemas de seis novos autores de língua portuguesa:
    Brites dos Santos, Cândida Luz, José Carlos, Manuela Correia, Rui Miguel Rocha e Sérgio F. Godinho


    Brites dos Santos

    Brites dos Santos

    Brites dos Santos tem 50 anos. No ano de 1999, publicou 2 poemas numa antologia de novos autores.

     


    Cândido Luz

    Cândido Luz

    Cândida Luz mora no Porto e tem 56 anos. Apesar de escrever há muito, estes são os primeiros poemas publicados.

     


    José Carlos

    José Carlos

    José Carlos, 23 anos de idade física (nascido algures em 1978) e idade mental oscilante entre 2 e 67.

     


    Manuela Correia

    Manuela Correia

    Manuela Correia estreou-se, há um ano, com o seu primeiro livro de poemas: As Nuvens Não São Mais de Algodão, editado pela Elefante Editores.

     


    Rui Miguel Rocha

    Rui Miguel Rocha

    Aqui estão cinco poemas inéditos de Rui Miguel Rocha, 28 anos, andebolista profissional e estudante de Medicina.

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    Sérgio F. Godinho

    Sérgio F. Godinho

    Sérgio F. Godinho, 22 anos, estudante de Arquitectura Paisagista na Universidade de Évora.

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  • Entrevista

    Na cor amarga do fim de tarde de valter hugo mãeVaLTER Hugo Mãe

    Para a entrevista do primeiro número da revista convidámos Valter Hugo Mãe, poeta da novíssima poesia portuguesa e uma referência sólida para o nosso século XXI.

     

    «revejo até à náusea. escravizo os meus textos. faço-lhes de tudo.»

    Lembra-se do primeiro livro de poesia ou do primeiro poema que leu?

    o primeiro que li completo foi a Mensagem de Fernando Pessoa. não acreditei imediatamente no que estava a ler. parecia-me perfeito. era muito miúdo, talvez tivesse 12 anos e ninguém mo aconselhara, apenas o encontrei. ouvira, obviamente, falar de Pessoa e senti um calafrio quando deparei com um livro dele. naquela altura a minha ingenuidade levava-me a pensar que os grandes livros, ou os grandes autores, eram de há muitos muitos séculos atrás e imperavam sobre nós como vidas eternas. eram sagrados, como se nos levassem a uma palavra secreta que revela o segredo do universo. claro que naquela altura eu achava isso por ingenuidade, agora acho-o por evidência.

    Neste percurso de escritas e de leituras, que autores (poetas ou não) considera terem-no influenciado mais?

    nunca me apercebo muito claramente daquilo que absorvo. de quando em vez tenho imagens de algo que li ou vi, mesmo anos antes. em algumas ocasiões essa recuperação de algo coincide surpreendentemente com algo que escrevi. diria que o meu universo tem algo de David Tibet, William Burroughs, Herberto Helder, Kafka, Crowley, Diamanda Gálas, Cesariny, etc.

    Quando começou a escrever poesia?

    muito cedo. assim que aprendi a escrever, com 6 anos na escola primária, comecei a apontar quadras. apontava muitos provérbios. penso que devido aos provérbios ganhei fascínio às máximas perfeitas, como manifestações de um discurso absoluto, sem inflexões, uma espécie de concentrado de uma só intenção. dominador e perene.

    Como e onde costuma escrever (à mão, usando computador, em casa, no café…)?

    escrevo em situações diversas. mas para funcionar tenho de ter os meus blocos a5 de sempre, a caneta de sempre, uma mesa que não balance, enfim. não sou nada de escrever em bocados de papel, guardanapos e posições perigosas nos transportes públicos. a escrita para mim tem muito de íntimo. tem de ser uma entrada numa densidade que não se compadece com ruídos. gosto de prepará-la, como se preparasse uma homilia, uma noite de amor ou uma refeição perfeita.

    Quando costuma escrever (de manhã, à noite, nas férias…)?

    sempre. não altero ritmos. quando tenho algo para escrever arranjo tempo. rebento se o não fizer. fico violento, chato e definho. escrevo muito, deito muito fora. sou muito pouco preocupado com guardar coisas.

    Revê frequentemente os seus poemas ou, depois de os considerar terminados, são «intocáveis»?

    revejo até à náusea. escravizo os meus textos. faço-lhes de tudo. posso até reutilizar coisas de um livro anterior para o que escrevo no momento. reescrevo, colo, pilho, tudo dentro daquilo que é meu. os meus textos não são intocáveis. intocável é o momento de criação, mas esse é sempre novo e irrepetível, e, no fundo, é por esse momento que o poeta corre.

    Olhando para trás, para os livros já publicados, que balanço faz?

    um desiquilíbrio total. publiquei cedo e mal. apagaria meus dois primeiros livros. tinha 25 anos e não pensava que escrevia bem, pensava que gostaria de publicar e que não escrevia mal. na verdade nunca pensei publicar. escrevia de forma estranha, com um total afastamento em relação a qualquer ambição. mas quando a oportunidade se me ofereceu não a desperdicei. foi como foi. não me arrependo. entristeço.

    Fale-nos do seu próximo livro.

    o meu próximo livro chama-se a cobrição das filhas, será lançado ainda este ano nas quasi edições, terá um posfácio de Luís Adriano Carlos e ilustração na capa de David Tibet. é um livro sobre a violência de se ser mulher. não que eu a possa provar, posso apenas imaginar, porque me impressiona. vai dedicado à minha mãe e a Tibet.

    Para quem não saiba por onde começar, que livros de poesia recomendaria ler em primeiro lugar?

    começar é tão longe que já nem sei como. apontaria Sophia de Melo Breyner, por ser tão límpida, e Pessoa por desconstruir o indivíduo, sempre tão impressionante para quem não conhece muito mais, e Al Berto para um contemporâneo profundamente lírico e belo (o Horto de Incêndio, claro), e depois, com algumas leituras, faria obrigatórias leituras de Herberto, A Colher na Boca, Poemacto, etc, de Ruy Belo, Aquele Grande Rio Euphrates, de Luís Miguel Nava, Como Alguém Disse, de Jorge Melícias, A Luz nos Pulmões, etc.

    Neste momento, quais são os poetas que tem em cima da mesa para ler?

    estou a ler Lautreamont pela segunda vez, agora no original, Adélia Prado, Saúl Dias (a sua obra é reeditada este ano ainda, finalmente), e José Luís Puerto.

  • Poetas, poesia & não só...

    Este mês, uma nova crónica de Francisco Simões, que vive no Brasil e é colaborador de várias publicações na Internet.
    O poeta Rui Miguel Rocha começa a contar–nos histórias.
    Nunes Carneiro escreve sobre a poesia na Internet.
    E há ainda livros e notícias.



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  • Sabor dos Clássicos

    Podemos inventar muitas palavras novas, descobrir textos inesperados mas, de vez em quando, sentamo-nos e saboreamos os clássicos.

    Hoje escolhemos Florbela Espanca e João de Deus.

    o nosso livro

    Florbela Espanca

    Livro do meu amor, do teu amor,

    Livro do nosso amor, do nosso peito…

    Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,

    Como se fossem pétalas de flor.

     

    Olha que eu outro já não sei compor

    Mais santamente triste, mais perfeito

    Não esfolhes os lírios com que é feito

    Que outros não tenho em meu jardim de dor!

     

    Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu

    Num sorriso tu dizes e digo eu:

    Versos só nossos mas que lindos sois!

     

    Ah! meu Amor! Mas quanta, quanta gente

    Dirá, fechando o livro docemente:

    «Versos só nossos, só de nós os dois!…»

    AMAR!

    Florbela Espanca

    Eu quero amar, amar perdidamente!

    Amar só por amar: Aqui… além…

    Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…

    Amar! Amar! E não amar ninguém!

    Recordar? Esquecer? Indiferente!…

    Prender ou desprender? É mal? É bem?

    Quem disser que se pode amar alguém

    Durante a vida inteira é porque mente!

    Há uma Primavera em cada vida:

    É preciso cantá-la assim florida

    Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!

    E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada

    Que seja a minha noite uma alvorada,

    Que me saiba perder… para me encontrar

     

    SEMPRE

    João de Deus

    Nem te vejo por entre a gelosia;

    Nunca no teu olhar o meu repoiso;

    Nunca te posso ver, e todavia

    Eu não vejo outra coisa!

     

    simpatia

    João de Deus

    Olhas-me tu

    Constantemente:

    Daí concluo

    Que essa alma sente;

    Que ama; não zomba

    Como é vulgar;

    Que é uma pomba

    Que busca o par!

     

    Pois ouve: eu gemo

    De te não ver!

    E em vendo, tremo,

    Mas de prazer!

     

    Foge-me a vista…

    Falta-me o ar…

    Vê quanto dista

    Daqui a amar!