Rafael Duarte é um autor natural de Guimarães e Azul-índigo é o seu terceiro livro de poesia. Azul-índigo conta a história, através de poemas, de alguém que se quer redescobrir através da cor e da consciência. Este tenta ultrapassar a morte, a perda do primeiro amor e a sua doença mental através da narrativa da sua vida.  O livro é dividido entre cinco capítulos, que, abstratamente, representam as cinco fases de luto. O livro retrata de forma honesta, sombria e esperançosa da vida de um homem que vive com ansiedade na sua idade adulta e procura de renascimento através do surrealismo do “eu”.
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BOLSO

Tenho o bolso do casaco rasgado
não sei se é culpa das moedas
ou mesmo da melancolia.
Sei que tentei remendar para lá guardar
aquilo que ainda de mim resta.
Mas ele continua a insistir
à luz do dia em se descoser.
Então todas as noites procuro
uma linha mais grossa,
uma agulha mais forte.

Até que percebo que não
vai voltar a fechar.
Vou-me habituando à ideia
de que mais nada poderei guardar.

 

TENTO

Entende que tentei
embarcar sem prestar
atenção aos ventos.

Sem admitir a minha
falta de estrutura
para te receber.

Tentei saber me nortear
nos teus sentimentos
mas dilacerante nortada
eras.

Tentei deixar pegadas
para o trilho procurares.
Querias ser feroz como o mar
acabando por me apagar.

 

NÃO TENHO A CERTEZA

 Não tenho a certeza de quando me vais acender.
não sei se espere,
se me postre no jardim
ou vá morrendo.

Aguardo-te,
Choro-te.

Não tenho a certeza se estiveste cá,
se algum dia me acendeste.

Não tenho a certeza se o teu coração de opala
batia as suas primaveras para mim.

Não tenho a certeza,
certamente te amei.

 

AZUL ÍNDIGO

Eu quero ser azul-índigo,
Alcançar o mar depois de te abraçar
Viver num antigo farol que nunca possa falhar,
Escrever e ser escravo dos meus versos,
Fintar a morte de mãos dadas contigo,
Cultivar árvores de grande porte e gestos simples.

O meu olhar brilhante como o nosso luar,
As tuas mãos a definirem as marés
As fases lunares a desenharem as minhas palavras
Desgastar o meu corpo na desfolhada
Degustar desgostos nas vindimas,
Amar descalço, descansar no nosso lar.

Agarrar os teus sorrisos com garra,
Orar ao sol, semear a tua essência
Trazer tréguas à nossa terra,
Serpentear pelo silêncio das solas dos meus sapatos,
Cintilar as passadas cicatrizes,
Cobrir as paredes de memórias.

Dançar pelos lençóis de linho estendidos
Perfumados de lavanda sem sermos perturbados,
Noites longas de sono sem luzes,
Perder-te entre os meus livros
Encontrar-te no alpendre
Onde me prendes e eu não me arrependo.

Conduzir-te ao desfiladeiro
Desfazer-me no teu corpo,
Cair para curar o negro concreto
Emoldurar a forma como mexo no teu cabelo,
Usar a tua camisa predileta
Partilhar frutos silvestres.

Passeios noturnos de bicicleta
Esquecer a sintonização terrestre,
Na tua palma da mão o cosmos
Na minha face o teu beijo de perdão,
Saber que podemos ser agora
E que o amanhecer não demora.

Massajar os teus pés cansados
acalmar os meus pensamentos,
Os nossos amigos numa mesa redonda
Servir café de cafeteira
Fotos de família na mesa de cabeceira.

Grandes janelas para luz nunca faltar
Portas destrancadas para sempre poder entrar,
Jogar às cartas na madrugada
Olhar-te nos olhos sem precisar de te ver,
Pássaros cantam a nossa rotina
Ondas rompem o nosso atrito.

Discutir, mas sem dormir de costas voltadas,
Embarcar no teu abraço
Enquanto te sentas no meu colo,
Jurar pelas estrelas que serei sempre o teu companheiro de estrada
Mesmo que estrague todos os eletrodomésticos, plantas e conversas,
Procurar os teus pares de meias, o teu casaco ajeitar.

O meu sotaque para te enfeitiçar,
Os teus lábios para me atiçar.

Elevar-te ao paraíso com um toque
Trazeres-me a terra com um suspiro,
Criar descendentes.
Construir mais estantes para os meus livros
Arranjar ainda mais espaço para te amar.

Fazer pão com as nossas mãos,
Desenhar reticências para suspirar
Sem pontos finais para amar,
Lírios na mesa da sala
Hortênsias na entrada
E amores perfeitos no quarto.

Eu quero ser azul índigo
Como o céu quando o sol está a partir,
Eu quero ser cor contigo.