NOVOS AUTORES

Sérgio F. Godinho, 22 anos, estudante de Arquitectura
Paisagista na Universidade de Évora.
Ainda não editou livros mas ideias não faltam. Participa regularmente em sessões de poesia.

A DESOLAÇÃO

hoje visitei a desolação, reparei em corpos que já não me lembrava. sentei-me no barco e reparei nas imagens que centrifugavam no mar, fugiam e cantavam. percorria o odor do mar num compasso. a saudade esgotou-se e o futuro não pára. já parti do porto que me acolheu
hoje viajo com a pele seca e a alma
encostada ao corpo


ÚLTIMA MORADA

o rumor de um passo estremece o silêncio

caminho até sentir o corpo anestesiado pelo frio
as mãos acariciam o meu rosto
e as lágrimas brotam no silêncio de um cigarro
ainda aceso

deambulo nesta cidade perdido
à tua procura

a chuva dardeja na roupa
o poema cai vertiginosamente sobre a folha
apaga estas mãos cansadas cuja textura nunca lhe foi devolvida

lembro
ficámos no silêncio errante de um beijo que apagou a noite
e talvez quiséssemos que ela ali acabasse

hoje ainda suspenso na dor
o viajante nocturno atravessa as ruas despidas
perde-se nas artérias das sombras que cobrem a tua ausência

o teu corpo
a última
morada


NUM OLHAR RASGADO AO VENTO

num olhar rasgado ao vento
lembro

noutra cidade disseram-me
passeio em todas as ruas iluminadas pelo teu silêncio
hoje ninguém repara nos sulcos do tecido adolescente
nas linhas que as mãos cortaram o mar

recolhi as imagens que as mãos perderam
juntei a solidão da pele nas algibeiras
teci a arquitectura dos ossos
desenhando o silêncio nos resíduos da melancolia

o desejo rasga o corpo do viajante nocturno
incendeia
alastra cortante sobre a magnólia
seu odor revelou o desejo de partir

fui praia fora
os pés sempre mergulhados no mar
para que nenhuma dor nenhuma saudade
fizesse voltar atrás

antes da terra vestir o amanhecer
decidi partir para uma cidade longe do mar

perscrutei atentamente o marulhar sobre a inocência da areia
e trouxe nos olhos aquela imagem que ainda hoje se move
sobre a película costeira do odor a sal
para além dos veleiros e dos passos que habitam em terra

depois percorri o labirinto da cidade deambulando
transumando e errando aqui e ali

descobri que a cidade não dorme
porque a manhã assalta o lume cortante da noite
a tarde atravessa o silêncio suspenso nas ruas
e os corvos pousam nos umbrais da cidade

halos de sombra vestem novamente as praças
a textura idosa das muralhas devolve-nos a identidade
dos minerais de onde viemos e voltamos a visitar

é neste descanso que o olhar ressoa marejado
erguido para um mar que não povoa nos mapas
a noite avança lentamente para os teus olhos
sobre o horizonte da tua face encontro ilhas

depois em suspiros partimos para a sede de um abraço
a nossa ausência despiu-se
sussurramos o amor inocente escondido no corpo
despimos gestos e olhares atados ao tempo fruído

(as tuas mãos tocavam a salsugem ainda derramada sobre os rostos)

o teu olhar nacarado
esse espelho vulcânico solto aos movimentos
que nos entorpeceram
entre toques inconcretos e estremecidos

é neste espaço que a pele estala de odores e danças lentas
percorremos as pautas incansáveis de murmúrios urgentes
pedimos para a noite ali ficar
e me torno viajante desenfreado

e num murmúrio
nomeei-te
lua

 


Rui Miguel Rocha

RUI MIGUEL ROCHA

Rui Miguel Rocha, 28 anos, andebolista profissional e estudante de Medicina.
Anatomia Íntima dos Sentidos e O Pó dos Poemas foram os dois livros já editados na Elefante Editores por Rui Miguel Rocha.

 

 

Onde do homem
o animal encontro:
o tronco

E por ele abaixo
as tuas pernas

E eu líquido estorvo


Ainda não começaste a ser rio
e és já sulco
cicatriz

Às vezes recuas no tempo
abandonas o teu destino
e sorris


Apesar de tudo
é a ti que me dirijo
quando desejo saber do sol
no interior dos frutos
– as suas cores –

E é isto o saber-me inútil:
conhecer as sílabas
ignorando as flores


Escolhíamos as palavras
como quem come cerejas
às escuras:

nunca as mais negras
muito menos a eito
apenas ao tacto
as maduras


Rodeavas-te de pequenas verdades:

“As maçãs nascem nas pedras” dizias

Trincavas os seixos
e atiravas fora os restos

Hoje existem macieiras
nesta pedreira

 

UM POEMA DE VEZ EM QUANDO
ABERTA A COLABORAÇÕES

A nossa revista está aberta à colaboração de poetas de língua portuguesa. Se deseja publicar poemas, divulgar iniciativas relacionadas com a poesia, dar opiniões, escreva-nos. Obrigado.

 

NotíciasNotícias

 

FEVEREIRO DE 2002:
ELEFANTE EDITORES COMEMORA 5 ANOS

A Elefante Editores comemorará, em Fevereiro de 2002, o seu quinto aniversário. Para assinalar a ocasião está previsto o lançamento de duas obras: a edição revista e ampliada de Do Amor-Breve Antologia de Poesia Portuguesa, que foi o primeiro livro editado em 1997; e o primeiro volume da série Poetas Fora da Gaveta, que reunirá 25 poemas de outros tantos autores que têm partilhado os seus trabalhos no fórum «Laboratório de Poesia».
Este fórum é coordenado por Brites dos Santos e, desde há alguns meses, é o ponto de encontro de muitos novos autores. De todos os poemas registados, um júri escolherá 25 que serão editados em livro.

ONDA POÉTICA:
QUATRO ANOS DE AMOR À POESIA

A «Onda Poética» é uma tertúlia mensal de/sobre poesia que existe, ininterruptamente, há quase quatro anos. Surgiu no âmbito de uma livraria entretanto desaparecida (Livramar, em Espinho) e continua agora no Bar Dominó do Casino desta cidade. Na segunda 2ª feira de cada mês, lêem-se poemas e partilham-se cumplicidades poéticas.
Vale a pena aparecer e participar pois existe sempre um espaço dedicado aos «espontâneos» que tanto podem ser poetas ou apenas declamadores.
A não perder.
Para mais informações está disponível o coordenador desta iniciativa, o poeta Antero Monteiro.

ASSOCIAÇÃO DE IDEIAS
LANÇA BOLETIM «LAVRA»

A Associação de Ideias, com sede em Gaia, começou a editar o boletim «Lavra».
A associação tem ainda um carácter informal e nasceu «da união de um conjunto de ideias dispersas, provenientes de diversos quereres e pessoas ligadas à cultura e muito especialmente à literatura e à poesia».
A associação pretende «contribuir, apoiar e promover a divulgação de novos valores e da sua obra nos mais diversos campos da arte e da cultura».
Para assinar o boletim e para receber informações sobre a Associação de Ideias e do seu boletim «Lavra», contacte o seu director Eduardo Roseira.

Poetas, Poesia
&
não só…

LivrosLivros

 

PRÓXIMAS EDIÇÕES DA ELEFANTE EDITORES

A reedição das obras completas de Edgar Carneiro está a ser preparada. O primeiro livro a ser reeditado está esgotado há vários anos e intitula-se Poemas Trasmontanos. Para esta edição está prevista a inclusão de fotografias do fotógrafo António Canelas.

Depois do sucesso que constituiu a sua primeira obra (As Nuvens Não São Mais de Algodão), Manuel Correia prepara o esperado novo livro ainda sem título. Estará nas mãos dos leitores em 2002.

Rui Miguel Rocha vai lançar mais um livro e, como habitualmente, perto do Natal. Depois de Anatomia Íntima dos Sentidos e de Pó dos Poemas, é também com muita expectativa que se esperam os novos poemas do poeta-andebolista.

POESIA INCOMPLETA LANÇADA EM ESPINHO

O segundo livro de J. A. Nunes Carneiro, Poesia Incompleta, foi lançado no decorrer da «Onda Poética», tertúlia mensal de poesia que decorre em Espinho.

Para apresentar a obra, outro poeta da Elefante Editores: Edgar Carneiro que se referiu ao novo livro como tendo «motivos de sobra para vos proporcionar uma agradável leitura». O autor, segundo as palavras de Edgar Carneiro, «procura ser original, conciliando o rigor da métrica tradicional com o mais moderno da novíssima poesia».

Poetas, Poesia & não só…

OpiniãoOpinião POESIA NA NET

A Internet abriu um mundo novo de oportunidades para os poetas e a sua poesia.
Existem milhares de páginas em todo o mundo. Muitas delas em língua portuguesa.
São centenas ou mesmo milhares os poetas que, com a Internet, conseguiram chegar aos leitores sem terem de estar ligados uma editora.
Um pouco por todo o lado surgem fóruns de/sobre poesia e aí se trocam ideias, se partilham poemas, se consolidam as palavras. Assim, mais do que nunca, os autores podem estar próximos dos seus leitores.
Numa palavra: a Internet abriu aos poetas, designadamente aos novos autores, um espaço privilegiado de contacto com os leitores e de divulgação das suas obras em todo o mundo.
E com uma vantagem acrescida de, na Internet, não existirem as habituais barreiras físicas da edição escrita e do livro.
Claro que nada substituirá o livro. Mas, o que certamente acontecerá é que a Internet será, muito em breve, o primeiro espaço de contacto dos novos autores com os seus leitores. (Não é por acaso que muitos consagrados estão a aderir…)
O livro virá depois e teremos que encontrar novas formas de impressão e distribuição que possibilitem a sua máxima expansão.
Mais do que uma ameaça, como alguns consideram, a Internet é uma oportunidade única de transformar a escrita, de tornar a poesia numa realidade universal… à distância de um clique.

Se desejar, escreva ao autor

HistóriasA jóia de uma moça

Uma jóia duma moça

«Dona Miquinhas! Ó dona Micas! Baixe o rádio se faz favor!»
É o que dá viver paredes-meias com uma velha louca, pensa a dona Luisa enquanto vai enrolando a omeleta de queijo, o prato favorito do senhor Henrique, seu marido. Eu já sabia que ia dar nisto quando a filha decidiu fugir com aquele inútil do electricista, eu já sabia que a velha não se ia aguentar nos eixos muito tempo.

«Dona Miquinhas!»
Intervala as manobras mágicas de revira-ovo com as interpelações à vizinha do lado pela janela aberta da cozinha. Já são vizinhas há muitos anos, tantos quantos os que a dona Luisa leva desta vida, desde que se lembra, diz ela às amigas nas suas queixas à mesa do café com os beiços lambuzados de manteiga. Vejam lá vocês que o diabo da velha só gosta de ouvir relatos de futebol, já ouviram semelhante?

«Dona Micas, faça-me um favor!»
Mas não há remédio. A dona Miquinhas leva já para cima de dioptrias de surdez. Além de não ouvir patavina do que a dona Luisa berra pelo interfone da janela, ainda tem o rádio a pilhas no máximo para conseguir descortinar a voz do relatador de peripécias futebolísticas. Sempre gostou de futebol, quando era miúda o pai levava-a a ver a bola ao estádio municipal, e já na altura vibrava com os valentes que corriam atrás da fortuna pontapeando um pedaço de couro. Sempre gostou de ir com ele para os ambientes dos homens, da tasca para a bola e da bola para o dominó na sala do primeiro andar do quartel dos bombeiros voluntários. Foi sempre uma maria-rapaz, uma inadaptada dos ambientes cor de rosa, jogava à fisga e ao pião e deixava as bonecas para as marias-raparigas que só tinham conversa estragada e choravam por tudo e por nada. Ela nunca chorou – os homens não choram -, nem mesmo quando o marido morreu de enfarte depois de um pénalti mal assinalado que custou a descida de divisão ao glorioso clube da terra.

«Baixe-me esse rádio!»
Ainda por cima esquece-se de tudo, o raio da velha. Esquece-se de tudo, mas do relatinho é que ela não se esquece. Vejam lá vossemecês que ela até o calendário do campeonato nacional sabe de cor e salteado. Só se lembra do que lhe interessa, essa é que é essa! Ainda por cima tenho de substituir a burra da filha que não lhe liga patavina e que me fez assumir as vezes de assistente social. Ela é pastilhinhas para dormir, remédio para a gota, xarope para a tosse e o diabo que a carregue. Já lá vão anos sem meter cá os pés e eu que me amanhe. O calhau com olhos não lhe liga puto e eu é que tenho de carregar a cruz. Vocês já viram a minha sina? Já sei que tem oitenta anos, mas eu não sou a Madre Teresa.

«Não se esqueça de tomar o remédio! Está a ouvir?»
Já lá vão treze anos, mas ainda sente muitas saudades do desaparecido. Conheceu-o no campo de treinos do União, para onde se dirigia depois das aulas com o intuito de ver o treino dos juniores. Foi paixão à primeira vista. Ele era o melhor jogador da equipa, tratava a bola por tu, driblava com a facilidade inata dos atletas de eleição e reparou nela quando, após marcar um golaço, veio beber água à linha lateral. Casaram passado um ano, não porque tivessem pressa, mas porque, de um momento para o outro, a Miquelina viu o seu baixo ventre inchar como uma bola de futebol. A filha nasceu pouco depois e ele teve de se mudar para um clube que lhe desse mais garantias. Foi assim que vieram para a cidade, foi assim que se mudaram para a casa onde ainda hoje mora, vibrando com os relatos de futebol e enchendo a paciência à dona Luisa, uma jóia duma moça.

«Dona Miquiiiiiinhas!»
Um dia destes o jogo corre mal e o diabo da velha tem uma sincope provocada por uma bola na trave. Um dia destes dá-lhe uma coisinha má e vou encontrá-la de cabeça à banda, com a língua de fora, a olhar para o infinito com aqueles olhos esbugalhados de adepto fanático, com a dentadura a rir-se para mim dentro do copo na mesinha de cabeceira como se o meu clube tivesse levado uma abada. Um dia destes perco a cabeça e faço trinta por uma linha quando a tontinha da filha a vier ver como quem visita um parente afastado, com a mesma cara de pau com que se foi embora, cheia de sorrisos e de malmequeres baratos gamados num quintal qualquer naquele bairro de pés-rapados onde mora. Não me chamo Luisa Morais de Sousa se um dia destes não faço uma vergonha.

«Olhe que eu vou aí! Está a ouvir?»
O Luís também era uma jóia, apareceu um dia lá em casa para uma emergência de fusíveis queimados e fez um trabalho de mestre. A dona Micas gostou tanto do serviço que até lhe ofereceu uma sande de queijo e uma cerveja para matar o bicho. A filha também deve ter gostado do que viu, a avaliar pela maneira como não tirava os olhos dos peitorais dilatados do electricista. O malandro tinha tanto jeito para os fios de electricidade como para acender corações apagados e, vai daí, catrafilou o sistema eléctrico da filha da dona Miquelina. O pior foi depois. O desgraçado do homem não se queria assumir. Comeu e não quis pagar como se a Joana fosse uma sande de queijo e como se a dona Micas fosse lorpa o bastante que não visse o desenrolar dos acontecimentos. Resultado: nove meses depois acendeu-se uma neta, que é como quem diz deu à luz, e o casório realizou-se ou não fosse a Micas senhora de tomates no sítio. Mas pior ainda foi quando se apercebeu que os músculos do Luís não serviam só para atarraxar lâmpadas e deu com ele a fazer da Joana gato-sapato, aos biqueiros à miúda como se fosse o defesa central do União a aviar os avançados adversários. Quem sabe nunca esquece e a escola da rua sempre serve para alguma coisa: o Luís apanhou tantas e tão poucas que deu o seu veredicto: ou a tua mãe ou eu. Foi assim que saíram de casa deixando a pobre da dona Miquinhas entregue aos relatos de futebol e aos cuidados da dona Luisa, uma santa duma mulher.

«Sei muito bem que me está a ouvir, sua desgraçada!»
Faço uma vergonha, eu que dê de caras com ela na rua! Onde é que já se viu? Acaba a torrada e a meia de leite, a omeleta já está enroladinha como ele gosta, Henrique para a mesa, diz ela para a sala. Gritos para um lado, gritos para o outro, um dia destes nem consigo falar com tanto berro. Pois fique vossemecê sabendo que mal a velha bata a bota eu arranjo maneira de lhe ficar com a casa. O quê? Não! Nem pense nisso! Eu cá não sou mulher de falcatruas! Já que a filha não quer nada com ela e eu é que a aguento, acho que mereço uma compensaçãozinha, não acha?

«Já comeu a sopa? Já tomou o xarope? Vou só almoçar e já desço.»
Só tem pena de não poder sair desta cama, são os ossos, disse-lhe o senhor doutor, estão fracos, também pudera, oitenta e seis anos já cá cantam, não há osso que aguente. Nem osso nem ouvido. Ultimamente tem escutado uns ruídos estranhos pela casa que a obrigam a aumentar o volume do rádio, está a ficar mouquinha de todo. Mas ia jurar que anda alguém cá dentro nos últimos dias, lá para as bandas do quarto da filha. Será que voltou? Será que não tem vergonha na cara? Ou tem e nem tem coragem de lhe aparecer à frente? Não acredita. A última vez que teve notícias dela não gostou muito do que ouviu, separara-se, más companhias, maus vícios, enfim, nada que ela não tivesse previsto. Mas era mesmo dela voltar sem dizer nada, ainda tinha a chave e, sem dinheiro como devia andar, era menina para lhe fazer uma destas. Por via das dúvidas, quando a dona Luisa vier cá peço-lhe para dar uma vista de olhos.

«Posso entrar, dona Miquinhas? Eu ia almoçar, mas não sei onde se meteu o meu marido.»
Preocupada: Já papou tudo?, assim é que é!, já tomou o xarope?, ó criatura, velhos são os trapos!, tome lá o xaropinho!, essa sua tosse não me deixa dormir toda a noite, lá em casa ouve-se tudo, barulhos?, não, não ouvi nada, onde?, no quarto da sua filha?, ora essa dona Miquinhas, não vê que essa desavergonhada não quer saber de si para nada, se calhar sintonizou a estação errada e em vez de futebol anda a ouvir radionovelas, está bem, está bem, eu vou dar uma vista de olhos. Raio da velha, agora sonha com fantasmas, está a ficar completamente xexé, tenho de lhe falar da casa antes que lhe dê para a arteriosclerose, uma pinturinha e fica como nova. Olá!, que barulho é este?, vem do quarto da desaparecida, isto é que é não ter mesmo vergonha na cara, pois, pois, trabalhar em casa sempre é um luxo, onde é que já se viu?, é agora que a velha me passa o condomínio, apanho a prostituta com a boca na botija e ainda lucro por cima, já nem pedia tanto, o que é isto?, molas a ranger?, isto promete! Vamos lá a ver o que é que se passa aqui!

«Henrique?!»

Setembro de 2000

Se desejar, escreva ao autor

Crónica

 

POESIA

Quem surgiu primeiro o poeta ou a poesia? Alguns dirão, que idiotice, a poesia não poderia existir sem o poeta, logo… É, parece muito óbvio. Mas, num sentido bem amplo poesia não se limita às definições do dicionário que diz: “…aquilo que desperta o sentimento do belo…. aquilo que há de elevado ou comovente em qualquer pessoa ou coisa..”
O belo, assim como o feio, já existiam antes do homem, claro. A existência de ambos não justificaria a presença da poesia antes do surgimento do homem? Digo isto porque para mim a poesia não apenas é escrita, não somente se origina dos devaneios líricos de pessoas que têm uma sensibilidade maior que outras, não.
Eu inverteria a primeira definição do dicionário e ousaria afirmar que o belo, ou mesmo o feio, desperta no homem ou na mulher um sentimento, os eleva, os comove. Então a poesia está também fora de nós, ao nosso redor, ou como diz um amigo meu: “A poesia está no ar, na Natureza, na mulher, no homem, na flor, na mão que se estende à caridade, na tragédia das guerras, na vida, enfim, na morte.”
O ser humano traduz em versos os seus sentimentos e estes podem ser de amor, mas não obrigatoriamente só de. Esses sentimentos vêm de uma imagem externa, de uma experiência vivida ou de um devaneio, de uma fantasia, de um delírio. Talvez o poeta não se aperceba muitas vezes de que ao versejar ele está trazendo para o papel a poesia que a ele se oferece ao tocar seu sentimento.
A poesia realmente está em quase tudo a nossa volta. Se perto, pela presença, se distante ou ausente, pela saudade mas até no delírio ou na fantasia temos a poesia no irreal, no abstrato, no pensamento insulado, no absconso mais remoto de nosso subconsciente. O poeta lhe dá ritmo, dita uma forma, a traduz para os seus versos, cria a poesia da poesia.
Com humildade o poeta reconhecerá que a poesia é maior do que ele. Ela realmente transcende seus versos, extrapassa o poeta. A inspiração é muitas das vezes mais um ato de ser inspirado pela própria poesia latente ou aparente, manifesta. Quando o poeta tem uma musa na verdade ele tem a própria poesia, personificada ou não. Versejando ele a homenageia.
Escolas, estilos etc são fruto da própria inquietação do poeta. Surgem do seu anseio fecundante, criativo, de avançar para além do conhecido, do repetido, de buscar fórmulas várias e variáveis tantas para se expressar poeticamente, porém alterando estruturas, compondo novas formas e configurações.
A poesia feita pelo homem se transforma. A que ele vê, sente, chora, sonha, toca, inspira-o, essa é imutável, ela apenas é e se basta em si mesma. Enquanto houver o mundo haverá a poesia, mesmo que o homem se tenha auto-destruído. Ainda que o poeta jamais tivesse se apercebido do luar a poesia estaria sempre ali. O mesmo vale para o pôr-do-sol, para a gota de orvalho, para a folha que cai, para a flor que desabrocha, para “a paz de uma criança dormindo”( Vinícius de Moraes) etc.
O valor do poeta está na sua sensibilidade para perceber e registrar para os demais seres mortais a poesia sempre presente a sua volta. Afinal, como diz aquele meu amigo: “A poesia está no ar, na Natureza, na mulher, no homem, na flor, na mão que se estende à caridade, na tragédia das guerras, na vida, enfim, na morte.”
Até no Calendário a poesia está presente bem antes do poeta. 14 de março é o Dia da Poesia e somente em outubro, no dia 20, comemora-se o Dia do Poeta.

Se desejar, escreva ao autor

NOVOS AUTORES

Manuela Correia estreou-se, há um ano, com o seu primeiro livro de poemas: As Nuvens Não São Mais de Algodão, editado pela Elefante Editores.
Estes poemas inéditos destinam-se ao seu segundo livro a editar no próximo ano.

Manuela CorreiaMANUELA CORREIA

E haver na areia
mais brisa que palavras

Em que não fosse fugir de nós
a marca das peugadas

E haver no sol festejos
com círios de quermesses

E as ruínas do ser
que as ondas desfizessem

E haver só rugas de água
que a maresia exorta

E fosse um fumo branco
a certidão da morte


teatro da vida

Com tantas gavetas na memória
– e algumas mal arrumadas –
ás vezes é difícil situar ou conjugar
as cenas certas de algumas peças

E se chego a perder-me na procura
de uma pausa ou de uma deixa
são sempre as peças da infância
quem de novo me põe em cena


quero ser

Nos teus olhos quero ser mistério
que vás decifrando lentamente

No teu peito só quero ser alma
que vás soletrando ao som do tempo

Nos teus braços só quero ser pássaro
que vás decorando como símbolo

Nos teus ombros só quero ser verde
que vás enlaçando como um limo

No teu ventre só quero ser pluma
que vás retomando como brisa

No teu sexo só quero ser flor
que vás regando como respiras

 

]José Carlos, 23 anos de idade física (nascido algures em 1978) e idade mental oscilante entre 2 e 67.
Escreve apenas quando sente verdadeiramente as coisas (sejam elas quais forem) porque, segundo diz, quando não sente “é porque estou a dormir, o que torna árdua a tarefa de manuseamento de caneta ou teclado”.

José CarlosJOSÉ CARLOS

 

DIS ALITER VISUM

Hoje tirei o dia

Para pensar nas coisas
Para pensar no que tenho
Para pensar no que não tenho
E não foi preciso pensar muito
Para descobrir uma coisa

O que tenho não quero
O que quero não tenho

Pensei logo nos teus olhos
E depois em tudo o resto
Pensei no que poderia ter sido
E depois no que foi
E não foi preciso pensar muito
Para descobrir uma coisa

O que foi não devia ter sido
O que devia ter sido não foi

Depois pensei na tua voz
E percebi como é diferente das outras
Reparei como gosto de te ouvir
E há tanto tempo que só ouço os outros
E não foi preciso pensar muito
Para descobrir uma coisa

O que ouço odeio
O que amo não ouço

No fim pensei outra vez em ti
E apercebi-me que só tinha pensado no que não tenho
Afinal só pensei em ti o dia todo
Afinal foi um dia igual aos outros
E no fim do dia
Descobri o que já sabia

Que tudo o que eu quero és tu
E que tu és a única coisa que eu não tenho


AFOGADO

A tristeza escorre-te líquida pela cara
Faz-me pensar se terei sido eu
Ou talvez as outras nuvens
Passo-te a mão pelos olhos
E sinto que o amor secou nas tuas veias
Aquele vento que mais ninguém sentia
Terei sido eu
Ou apenas a chuva?
Os teus olhos que sempre olharam
E que nunca me viram
Só respondem ao que eu não pergunto
Só me dizem o que já sei
E que tinha tentado esquecer
Continuaste a andar
Mas eu fiquei para trás
Tenho o coração húmido
Das lágrimas que choraste por outros
Tenho uma vida a afogar-se
Nas lágrimas de tanta gente
Que nunca chorou por mim
Mas tu continuaste a andar
E nem tinha sido eu
Nem as nuvens
Nem a chuva
Tu continuaste a andar
Porque a tua tristeza secou
Mas a minha não

 

Cândida Luz mora no Porto e tem 56 anos. Apesar de escrever há muito, estes são os primeiros poemas publicados.

Cândido LuzCÂNDIDO LUZ

 

VOLTA A VIVER

Estrada escura na noite cerrada
assim me parece minha vida fechada.
Mas as janelas da minha alma
hei-de abrir.

Depois das portas se terem fechado,
um novo jardim há-de florir
e a luz da manhã
de mansinho…voltará a surgir!


TRAVESSIA DE VIDA

Foste minha forma de viver,
minha sede de amar,
minha vontade de comer,
meu oxigénio a respirar.

Foste a minha energia,
a minha força de andar
em busca de um alento,
para a vida atravessar.


POETA

Ser poeta é ser alguém
em constante desassossego.
Procura a utopia… o tudo e o nada
o princípio e o fim.

Na sua mente complicada!…
É um ser sonhador
difícil de entender.
Não se encaixa
no pré-estabelecido,
no louco rodopio.

Tenta acreditar num mundo
que só para ele faz sentido.
É um mundo imaginado
não é o convencionado.

 

Brites dos Santos tem 50 anos. No ano de 1999, publicou 2 poemas numa antologia de novos autores. Nos últimos meses tem animado um fórum de poesia na Internet a que chamou Laboratório de Poesia e que tem tido uma “adesão notável”. Desde muito cedo, por influência do pai que escrevia umas quadras soltas, começou a interessar-se por poesia. Os seus primeiros poemas datam de 1962. Defende que a poesia é uma escrita natural e não forçada, fácil e nunca difícil, porque é a transposição dos sentimentos para o papel! Não é nem poderá ser uma escrita “de encomenda”.

BRITES DOS SANTOS

 

EU QUERIA SER POETA

Eu queria ser poeta…
Ah! Como eu queria ser poeta…

Viveria com as palavras,
Seria alquimista das palavras,
Misturá-las-ia com sabedoria,
Criaria novas palavras
Mais fáceis de entender,
De perceber,
Melhoraria as relações,
Acabaria com as desilusões!

Seria profeta…
Ah! Se eu fosse poeta…

Eu queria ser poeta…
Ah! Como eu queria ser poeta…

Seria amado
Como só um poeta pode ser amado,
Amaria
Como só um poeta sabe amar,
Criaria uma nova forma de amar
De gostar,
Melhoraria o pensamento,
Acabaria com o sofrimento!

Seria profeta…
Ah! Se eu fosse poeta…


NÃO ME PEÇAS PARA TE ESQUECER

Não me peças para te esquecer
meu amor!

faço tudo menos esquecer.
não posso esquecer
meu amor!

não me peças para fingir que não aconteceu
meu amor!

faço tudo menos fingir que não aconteceu.
não posso fingir
meu amor!

não me peças para ignorar os sentimentos
meu amor!

faço tudo menos ignorar os sentimentos.
não posso ignorar
meu amor!

não me peças para te perder
meu amor!

faço tudo menos perder-te.
não posso perder-te
meu amor!

não me peças para pensar que foi um equívoco
meu amor!

faço tudo menos pensar que foi um equívoco.
não posso pensar
meu amor!

pede-me antes para te lembrar,
para te abraçar,
para te beijar,
para te acariciar,
meu amor!

pede-me antes para te amar
meu amor!


SUA EXCELÊNCIA O SENHOR MINISTRO DA CULTURA

Sua Excelência o senhor ministro da cultura
Comemorou o dia mundial da poesia.
Transformou uma alegre tarde de sol numa tarde triste e escura
Sem poetas na rua, sem poetas convidados, sem poetas
A poesia se poesia existia estava solitária nuns tímidos papeis de cor

Sua Excelência o senhor ministro da cultura
Comemorou o dia mundial da poesia.
Atingiu certamente muitas das suas inconfessáveis metas
Mas não atingiu a poesia, nem o sentimento, nem o amor
Porque não tinha consigo os poetas.

Sua Excelência o senhor ministro da cultura
Comemorou o dia mundial da poesia.
E lamentavelmente esqueceu-se dos poetas

Sua Excelência o senhor ministro da cultura
Comemorou o dia mundial da poesia.
Sem as mulheres e os homens criadores da poesia
E dois dias depois eu estive num encontro de poesia
Onde se pediu “encarecidamente” aos poetas para não dizerem poesia!
Por favor! que mundo é este que fecha as portas à poesia
Mesmo quando se fala e age em nome da poesia?

Sua Excelência o senhor ministro da cultura
Comemorou o dia mundial da poesia.
O que é que eu faço com o dia mundial da poesia?
Todos os dias para mim são o dia mundial da poesia!

A mim não me apetece desatar em histéricos prantos.
Não me apetece citar Cristo, nem Deus, nem Anjos, nem Santos.
Não me apetece desatar alegremente em estúpidas gargalhadas
Apetece-me simplesmente falar de nomes de pessoas
Mesmo que esses nomes não tenham métrica nem rima
E que portanto as palavras não se possam considerar poeticamente boas

Al Berto, Alexandre O’Neil, Almada Negreiros,
Almeida Garrett, Antero de Quental, António Aleixo,
António Botto, António Gedeão, António Nobre,
Aragon, Bertolt Brecht, Castro Alves,
Cesário Verde, Bernardim Ribeiro, Camilo Pessanha,
Carlos Drumond de Andrade, Eugénio de Andrade, David Mourão Ferreira, Federico Garcia Lorca, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Herberto Helder, Joaquim Namorado, Joaquim Pessoa, Jorge de Sena,
Jorge Luís Borges, José Afonso, José Carlos Ary dos Santos,
José Gomes Ferreira, José Régio, Luíz Vaz de Camões,
Machado de Assis, Manuel Alegre, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Mario Cesariny, Mário de Sá Carneiro, Mario Dionísio,
Mário Henrique Leiria, Mia Couto, Miguel Torga, Natália Correia, Norge, Octávio Paz, Pablo Neruda, Paul Éluard, Ruy Belo,
Sérgio Godinho, Sophia de Melo Breyner Vinícios de Moraes,

E tantos, tantos mais meu Deus,
E são todos nossos e são todos meus!