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Revista nº 1

outubro 2001

NOVOS
AUTORES

Sérgio F. Godinho, 22 anos, estudante de Arquitectura
Paisagista na Universidade de Évora.
Ainda não editou livros mas ideias não faltam. Participa regularmente em sessões de poesia.

Sérgio F. GodinhoSÉRGIO F. GODINHO

A DESOLAÇÃO

hoje visitei a desolação, reparei em corpos que já não me lembrava. sentei-me no barco e reparei nas imagens que centrifugavam no mar, fugiam e cantavam. percorria o odor do mar num compasso. a saudade esgotou-se e o futuro não pára. já parti do porto que me acolheu
hoje viajo com a pele seca e a alma
encostada ao corpo


ÚLTIMA MORADA

o rumor de um passo estremece o silêncio

caminho até sentir o corpo anestesiado pelo frio
as mãos acariciam o meu rosto
e as lágrimas brotam no silêncio de um cigarro
ainda aceso

deambulo nesta cidade perdido
à tua procura

a chuva dardeja na roupa
o poema cai vertiginosamente sobre a folha
apaga estas mãos cansadas cuja textura nunca lhe foi devolvida

lembro
ficámos no silêncio errante de um beijo que apagou a noite
e talvez quiséssemos que ela ali acabasse

hoje ainda suspenso na dor
o viajante nocturno atravessa as ruas despidas
perde-se nas artérias das sombras que cobrem a tua ausência

o teu corpo
a última
morada


NUM OLHAR RASGADO AO VENTO

num olhar rasgado ao vento
lembro

noutra cidade disseram-me
passeio em todas as ruas iluminadas pelo teu silêncio
hoje ninguém repara nos sulcos do tecido adolescente
nas linhas que as mãos cortaram o mar

recolhi as imagens que as mãos perderam
juntei a solidão da pele nas algibeiras
teci a arquitectura dos ossos
desenhando o silêncio nos resíduos da melancolia

o desejo rasga o corpo do viajante nocturno
incendeia
alastra cortante sobre a magnólia
seu odor revelou o desejo de partir

fui praia fora
os pés sempre mergulhados no mar
para que nenhuma dor nenhuma saudade
fizesse voltar atrás

antes da terra vestir o amanhecer
decidi partir para uma cidade longe do mar

perscrutei atentamente o marulhar sobre a inocência da areia
e trouxe nos olhos aquela imagem que ainda hoje se move
sobre a película costeira do odor a sal
para além dos veleiros e dos passos que habitam em terra

depois percorri o labirinto da cidade deambulando
transumando e errando aqui e ali

descobri que a cidade não dorme
porque a manhã assalta o lume cortante da noite
a tarde atravessa o silêncio suspenso nas ruas
e os corvos pousam nos umbrais da cidade

halos de sombra vestem novamente as praças
a textura idosa das muralhas devolve-nos a identidade
dos minerais de onde viemos e voltamos a visitar

é neste descanso que o olhar ressoa marejado
erguido para um mar que não povoa nos mapas
a noite avança lentamente para os teus olhos
sobre o horizonte da tua face encontro ilhas

depois em suspiros partimos para a sede de um abraço
a nossa ausência despiu-se
sussurramos o amor inocente escondido no corpo
despimos gestos e olhares atados ao tempo fruído

(as tuas mãos tocavam a salsugem ainda derramada sobre os rostos)

o teu olhar nacarado
esse espelho vulcânico solto aos movimentos
que nos entorpeceram
entre toques inconcretos e estremecidos

é neste espaço que a pele estala de odores e danças lentas
percorremos as pautas incansáveis de murmúrios urgentes
pedimos para a noite ali ficar
e me torno viajante desenfreado

e num murmúrio
nomeei-te
lua

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