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Revista nº 1

outubro 2001

Poetas, Poesia
&
não só…

Rui Miguel Rocha

HistóriasA jóia de uma moça

Uma jóia duma moça

«Dona Miquinhas! Ó dona Micas! Baixe o rádio se faz favor!»
É o que dá viver paredes-meias com uma velha louca, pensa a dona Luisa enquanto vai enrolando a omeleta de queijo, o prato favorito do senhor Henrique, seu marido. Eu já sabia que ia dar nisto quando a filha decidiu fugir com aquele inútil do electricista, eu já sabia que a velha não se ia aguentar nos eixos muito tempo.

«Dona Miquinhas!»
Intervala as manobras mágicas de revira-ovo com as interpelações à vizinha do lado pela janela aberta da cozinha. Já são vizinhas há muitos anos, tantos quantos os que a dona Luisa leva desta vida, desde que se lembra, diz ela às amigas nas suas queixas à mesa do café com os beiços lambuzados de manteiga. Vejam lá vocês que o diabo da velha só gosta de ouvir relatos de futebol, já ouviram semelhante?

«Dona Micas, faça-me um favor!»
Mas não há remédio. A dona Miquinhas leva já para cima de dioptrias de surdez. Além de não ouvir patavina do que a dona Luisa berra pelo interfone da janela, ainda tem o rádio a pilhas no máximo para conseguir descortinar a voz do relatador de peripécias futebolísticas. Sempre gostou de futebol, quando era miúda o pai levava-a a ver a bola ao estádio municipal, e já na altura vibrava com os valentes que corriam atrás da fortuna pontapeando um pedaço de couro. Sempre gostou de ir com ele para os ambientes dos homens, da tasca para a bola e da bola para o dominó na sala do primeiro andar do quartel dos bombeiros voluntários. Foi sempre uma maria-rapaz, uma inadaptada dos ambientes cor de rosa, jogava à fisga e ao pião e deixava as bonecas para as marias-raparigas que só tinham conversa estragada e choravam por tudo e por nada. Ela nunca chorou – os homens não choram -, nem mesmo quando o marido morreu de enfarte depois de um pénalti mal assinalado que custou a descida de divisão ao glorioso clube da terra.

«Baixe-me esse rádio!»
Ainda por cima esquece-se de tudo, o raio da velha. Esquece-se de tudo, mas do relatinho é que ela não se esquece. Vejam lá vossemecês que ela até o calendário do campeonato nacional sabe de cor e salteado. Só se lembra do que lhe interessa, essa é que é essa! Ainda por cima tenho de substituir a burra da filha que não lhe liga patavina e que me fez assumir as vezes de assistente social. Ela é pastilhinhas para dormir, remédio para a gota, xarope para a tosse e o diabo que a carregue. Já lá vão anos sem meter cá os pés e eu que me amanhe. O calhau com olhos não lhe liga puto e eu é que tenho de carregar a cruz. Vocês já viram a minha sina? Já sei que tem oitenta anos, mas eu não sou a Madre Teresa.

«Não se esqueça de tomar o remédio! Está a ouvir?»
Já lá vão treze anos, mas ainda sente muitas saudades do desaparecido. Conheceu-o no campo de treinos do União, para onde se dirigia depois das aulas com o intuito de ver o treino dos juniores. Foi paixão à primeira vista. Ele era o melhor jogador da equipa, tratava a bola por tu, driblava com a facilidade inata dos atletas de eleição e reparou nela quando, após marcar um golaço, veio beber água à linha lateral. Casaram passado um ano, não porque tivessem pressa, mas porque, de um momento para o outro, a Miquelina viu o seu baixo ventre inchar como uma bola de futebol. A filha nasceu pouco depois e ele teve de se mudar para um clube que lhe desse mais garantias. Foi assim que vieram para a cidade, foi assim que se mudaram para a casa onde ainda hoje mora, vibrando com os relatos de futebol e enchendo a paciência à dona Luisa, uma jóia duma moça.

«Dona Miquiiiiiinhas!»
Um dia destes o jogo corre mal e o diabo da velha tem uma sincope provocada por uma bola na trave. Um dia destes dá-lhe uma coisinha má e vou encontrá-la de cabeça à banda, com a língua de fora, a olhar para o infinito com aqueles olhos esbugalhados de adepto fanático, com a dentadura a rir-se para mim dentro do copo na mesinha de cabeceira como se o meu clube tivesse levado uma abada. Um dia destes perco a cabeça e faço trinta por uma linha quando a tontinha da filha a vier ver como quem visita um parente afastado, com a mesma cara de pau com que se foi embora, cheia de sorrisos e de malmequeres baratos gamados num quintal qualquer naquele bairro de pés-rapados onde mora. Não me chamo Luisa Morais de Sousa se um dia destes não faço uma vergonha.

«Olhe que eu vou aí! Está a ouvir?»
O Luís também era uma jóia, apareceu um dia lá em casa para uma emergência de fusíveis queimados e fez um trabalho de mestre. A dona Micas gostou tanto do serviço que até lhe ofereceu uma sande de queijo e uma cerveja para matar o bicho. A filha também deve ter gostado do que viu, a avaliar pela maneira como não tirava os olhos dos peitorais dilatados do electricista. O malandro tinha tanto jeito para os fios de electricidade como para acender corações apagados e, vai daí, catrafilou o sistema eléctrico da filha da dona Miquelina. O pior foi depois. O desgraçado do homem não se queria assumir. Comeu e não quis pagar como se a Joana fosse uma sande de queijo e como se a dona Micas fosse lorpa o bastante que não visse o desenrolar dos acontecimentos. Resultado: nove meses depois acendeu-se uma neta, que é como quem diz deu à luz, e o casório realizou-se ou não fosse a Micas senhora de tomates no sítio. Mas pior ainda foi quando se apercebeu que os músculos do Luís não serviam só para atarraxar lâmpadas e deu com ele a fazer da Joana gato-sapato, aos biqueiros à miúda como se fosse o defesa central do União a aviar os avançados adversários. Quem sabe nunca esquece e a escola da rua sempre serve para alguma coisa: o Luís apanhou tantas e tão poucas que deu o seu veredicto: ou a tua mãe ou eu. Foi assim que saíram de casa deixando a pobre da dona Miquinhas entregue aos relatos de futebol e aos cuidados da dona Luisa, uma santa duma mulher.

«Sei muito bem que me está a ouvir, sua desgraçada!»
Faço uma vergonha, eu que dê de caras com ela na rua! Onde é que já se viu? Acaba a torrada e a meia de leite, a omeleta já está enroladinha como ele gosta, Henrique para a mesa, diz ela para a sala. Gritos para um lado, gritos para o outro, um dia destes nem consigo falar com tanto berro. Pois fique vossemecê sabendo que mal a velha bata a bota eu arranjo maneira de lhe ficar com a casa. O quê? Não! Nem pense nisso! Eu cá não sou mulher de falcatruas! Já que a filha não quer nada com ela e eu é que a aguento, acho que mereço uma compensaçãozinha, não acha?

«Já comeu a sopa? Já tomou o xarope? Vou só almoçar e já desço.»
Só tem pena de não poder sair desta cama, são os ossos, disse-lhe o senhor doutor, estão fracos, também pudera, oitenta e seis anos já cá cantam, não há osso que aguente. Nem osso nem ouvido. Ultimamente tem escutado uns ruídos estranhos pela casa que a obrigam a aumentar o volume do rádio, está a ficar mouquinha de todo. Mas ia jurar que anda alguém cá dentro nos últimos dias, lá para as bandas do quarto da filha. Será que voltou? Será que não tem vergonha na cara? Ou tem e nem tem coragem de lhe aparecer à frente? Não acredita. A última vez que teve notícias dela não gostou muito do que ouviu, separara-se, más companhias, maus vícios, enfim, nada que ela não tivesse previsto. Mas era mesmo dela voltar sem dizer nada, ainda tinha a chave e, sem dinheiro como devia andar, era menina para lhe fazer uma destas. Por via das dúvidas, quando a dona Luisa vier cá peço-lhe para dar uma vista de olhos.

«Posso entrar, dona Miquinhas? Eu ia almoçar, mas não sei onde se meteu o meu marido.»
Preocupada: Já papou tudo?, assim é que é!, já tomou o xarope?, ó criatura, velhos são os trapos!, tome lá o xaropinho!, essa sua tosse não me deixa dormir toda a noite, lá em casa ouve-se tudo, barulhos?, não, não ouvi nada, onde?, no quarto da sua filha?, ora essa dona Miquinhas, não vê que essa desavergonhada não quer saber de si para nada, se calhar sintonizou a estação errada e em vez de futebol anda a ouvir radionovelas, está bem, está bem, eu vou dar uma vista de olhos. Raio da velha, agora sonha com fantasmas, está a ficar completamente xexé, tenho de lhe falar da casa antes que lhe dê para a arteriosclerose, uma pinturinha e fica como nova. Olá!, que barulho é este?, vem do quarto da desaparecida, isto é que é não ter mesmo vergonha na cara, pois, pois, trabalhar em casa sempre é um luxo, onde é que já se viu?, é agora que a velha me passa o condomínio, apanho a prostituta com a boca na botija e ainda lucro por cima, já nem pedia tanto, o que é isto?, molas a ranger?, isto promete! Vamos lá a ver o que é que se passa aqui!

«Henrique?!»

Setembro de 2000

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